Quando
falamos em construção moral algumas perguntas
se fazem constantemente presentes, nos trazendo grandes
questionamentos, ansiedade e dúvidas quanto à
nossa participação neste processo: “
Como contribuir para a construção da moral
das crianças?” “Quais as ações
dos adultos privilegiam ou obstaculizam esse desenvolvimento
moral?”
Para respondermos à estas indagações,
devemos primeiramente entender como ocorre o processo
de construção da moral infantil. Nossos
estudos referentes à moralidade estão embasados
nos pressupostos de Piaget. Mas então o que é
moral? Segundo o dicionário Aurélio: “
parte da filosofia que trata dos atos humanos, dos bons
costumes e dos deveres do homem em sociedade e perante
os de sua classe”. Sendo assim, todas as ações
que visem o bem estar comum e o respeito ao próximo
é considerada moral. Isso implica em regras que
sirvam para nortear as ações de todos os
indivíduos que convivam em grupo, sociedade.
A moral não é inata, a criança
a constrói na medida em que vai desenvolvendo-se
e interagindo com o meio que a cerca. Essa construção
possui um caminho e etapas em que todas as crianças
passam neste processo.
ANOMIA: primeira etapa – do nascimento
até cerca de 1 anos e 6 meses. Caracteriza-se pela
incapacidade de obedecer às regras, devido à
dificuldade de compreensão causada pela iniciação
dos quadros mentais, fugazes e sem coordenação.
Com o desenvolvimento da imagem mental, o bebê torna-se
capaz de interiorizá-las, habilitando-se à
segunda etapa da moralidade. È por isso que uma
criança de aproximadamente um ano precisa ser muitas
vezes advertida de que não pode ir a determinados
locais ou mexer em certos objetos, já que essas
regras ainda não foram interiorizadas. O adulto
cumpre aí uma importante função:
auxilia a criança em seu processo de interiorização,
funcionando como um evocador externo da norma.
HETERONOMIA: aproximadamente até
os 6 anos de idade. Segunda etapa – Com a interiorização
das regras, a criança passa a ser capaz de reconhecê-las
e respeitá-las, o que é especialmente favorecido
pela participação em atividades coletivas,
já que o respeito às regras é condição
para o êxito dessas atividades. No entanto, tal
interiorização não é suficiente
para que a criança seja autônoma, pois a
irreversibilidade do pensamento, somada à dependência
das situações concretas ou imediatamente
imaginadas, impede-lhes de raciocinar em função
das causas, fazendo-a deter-se nos efeitos das situações
das quais participa. Por isso, não se coloca na
perspectiva de autora ou co-responsável pelas regras.
Daí a expressão heteronomia: ser governado
por outrem. O respeito característico dessa etapa
é unilateral, pois o motivo que leva a criança
a respeitar o adulto é baseado no medo ou no afeto.
Não há reciprocidade. Eis uma das fontes
do egocentrismo: a despeito da criança não
se perceber responsável pelas regras, suas hipóteses
sobre elas baseiam-se somente no seu ponto de vista, que
preside a interpretação deformante das situações.
O adulto neste processo deve questionar o ponto de vista
da criança, confrontando-a e assim propiciando
a postulação e a renovação
de hipóteses, bem como sua revisão.
AUTONOMIA: Terceira etapa. Refere-se
à capacidade de tomar decisões por si mesmo,
identificando-se como co-autor das regras e responsável
por sua manutenção ou substituição.
Com a capacidade de agir mentalmente, ainda que nas dependências
das situações concretas, e com reversibilidade
que seu pensamento logrou, a criança dessa etapa
pode localizar seu ponto de vista e relacioná-lo
aos demais. Compreende os efeitos das infrações
e identifica suas causas. Deixar de ver sob um único
ponto de vista (o seu) é descentrar-se, coordenar
as diversas perspectivas é agir com base na reciprocidade.
Nasce aqui o respeito mútuo. A moralidade autônoma,
no entanto, deve cumprir uma longa caminhada rumo ao seu
aperfeiçoamento.