Tema para debate
Diga sim ao não
Atenção pais do nosso Brasil, principalmente os de classe média e os mais afortunados: as clinicas, os consultórios médicos, as comunidades terapêuticas e as prisões estão cada vez mais repletas de jovens. Sabem por quê? Pela ausência do não e pela repetição, freqüente, do sim.
Todos estamos, cada vez mais, facilitando. Entre no quarto do seu filho ou filha, agora, e conte quantos brinquedos eles tem. Compare com o seu tempo. Brincávamos com um ou dois carrinhos, até construídos por nós mesmo, uma bola.Elas, com duas ou três bonecas, ou coisa parecida. E como dávamos valor. Hoje em dia, qualquer quarto dos nossos garotos mais lembra uma loja, um verdadeiro shopping . Resultado de quê? Do repetido sim.
Claro que o sim é tão importante quanto o não. O sim aos livros, por exemplo, é fundamental para uma vida mais completa e feliz. Mas o sim para qualquer pedido nunca pode vir solteiro, desacompanhado de algo fundamental para o amadurecimento de todos nós: mérito. Mereceu. Levou, mas sempre de acordo com as nossas possibilidades.
Hoje, é uma das maiores preocupações dos pais é a questão da droga. Existe um legião de famílias desesperadas pelo envolvimento dos seus filhos com a droga. Entre as drogas incluo, necessariamente, o álcool. É importante ressaltar que não existe culpados, mas responsáveis. E todos nós somos. Um quarto cheio de brinquedos, uma cabeça repleta de “sins”, uma vida sem regras, sem limites, não saberá dizer não ás coisas ruins, sem limites, como a droga, por exemplo.
A droga merece uma atenção toda especial de todos nós, ainda mais pelo avanço epidêmico do crack, já cerca de 30 mil (ou até mais) dependentes no Rio Grande do Sul, sem poupar nenhuma classe social, sem distinção de cor, raça, sexo ou religião. Estamos perdendo esta guerra, no combate ao tráfico, na prevenção, na recuperação dos dependentes e igualmente no apoio ás famílias, que igualmente ficam desesperadas e doentes. Um simples sim á curiosidade de um jovem adolescente em experimentar uma droga, inclusive a maconha (não tem nada de droga leve), ou até pré-adolescente (já temos muitos casos de crianças de nove, 10 anos dependente de crack), numa festinha inocente mesmo dentro da nossa própria casa, pode representar mais um dependente no mercado.

O preço de R$ 5,00 pago por uma pedra de crack pode aparentemente ser barato, mas o “barato” que custa muito caro. Só a remoção de um drogado em surto, depois de “fumar” os seus bens e de toda família, custa cerca de R$ 300,00. A desintoxicação numa clínica, de acordo com opinião medica atual, não pode ser inferior a três meses. Muitos já falam em até um ano> São enormes perdas matérias e morais, um desgaste emocional imenso para familiares do drogado. A dependência será para a vida inteira. Claro que a dependência tem controle, mas não tem cura.
A única vacina contra a droga é nunca usar. O exemplo dos pais, o não com amor, são importantes para uma vida saudável. Mas isto não é tudo, já que fatores externos à família exercem hoje, cada vez mais influencia no comportamento dos nossos filhos. O certo é que “prevenir ainda é o melhor remédio”, como enfatiza o escritor gaúcho Caho Lopes, no seu livro Cara a Cara com as drogas. Esta prevenção passa pela informação adequada ( a escritora americana Peggy Mann afirma que 12 anos já é uma idade tarde para recomeçar a educar sobre efeitos de drogas); em programas educativos nas escolas e no trabalho; promoção de atividades diversas, mobilização da comunidade e da opinião publica, muito diálogo e atenção, entre outras tantas iniciativas. Vêm ai as festas de final de ano. Solicitações de todos os lados, perspectiva de um “tsunami” de brinquedos para os nossos rebentos. Uma boa saída, para nós, pais, seria construirmos junto com nossos filhos qual seria o presente mais adequado para eles neste momento. Se não seria interessante eles também dividirem com alguém, algum menino ou menina carente, os seus próprios brinquedos, amontoados no seu quarto. Dar, receber, sim, não,prazer, felicidade, o natal é um bom momento para meditar.Sem esquecer de que rezar não faz mal para ninguém .


O limite do limite

Nobres colegas, permitam-me discordar. “ Dar limites a um filho” não pode ser uma imposição de fora para dentro. Estados autoritários tentaram controlar populações inteiras e só conseguiram causar destruição e morte. Reproduzi-los dentro de casa implica o mesmo desenlace . Ou o filho constrói o limite dentro de si, ao longo de sua evolução como ser humano, ou o problema muda de patamar e passamos a patologia franca. A questão correta é: “Que fazer para dar ao filho os fatores que ele necessita para construir como ser ético e solidário, capaz de gerir a si mesmo?”.
A psicanálise, há mais de cem anos, propõe que o diferencial está na possibilidade de se oferecer um objeto de identificação desde os primórdios da formação pessoal, um ambiente amoroso onde as diferenças sejam toleradas e as capacidades pessoais estimuladas. Decretar que todo canhoto seja destro ou todo curioso ou hiperativo seja um “portador de déficit de atenção” é uma simplificação demasiada e uma violência simbólica ou factual contra o portador...
A ciência contemporânea, que rejeita a linearidade cartesiana, incluídas aí a neurociência atual e a psicológica de ponta, mostra que somos seres complexos, que nos desenvolvemos segundo nossa estrutura em consonância com nosso meio ambiente, visando construir um ser autônomo e competente no seu modo de viver. Aí entra a família, propiciando esse espaço, que deve ser fundamental amoroso, para que seus frutos possam desenvolver boas identificações, “bons objetos internos”, como dizem os psicanalistas, de modo a poder recorrer a eles nos momentos dificieis. Quem depende sempre de uma autorização externa ou de um estimulo que venha de fora nunca será adulto nesta vida.
Não é por trabalhar fora ou por se deixar seduzir pelas gracinhas de um filho que uma mãe o está prejudicando, mas, eventualmente, estes fatores contribuem para uma patologia que é de todos e, se precocemente detectada, permite correção de rumo e um desenlace diferente, somente possível num sistema em que o amor seja o valor predominante e não simplesmente “autoridade”.
Dizer que todo primeiro porre ou cigarro de maconha é um sinal de pânico implica uma generalização perigosa que não leva em conta o resto todo do sistema vivente, pondo tudo num saco só e desqualificando as diferenças individuais. Evidentemente que não recomendo nem porres nem maconha, mas daí a fazer disso um “deus nos acuda”...O mal está em fazer do paciente um bode expiatório de uma patologia familiar, sem atender ao conjunto sofredor e necessitado de mais amor. A sociedade tem sido incompetente para dar auxilio que famílias assim necessitam, ao se restringir apenas ao mais evidente, desprezando o drama todo e suas necessidade por trás do palco.


Na hora da birra, o importante é não ceder

Trata-se de comportamento comum na infância e pode estender-se à adolescência


Quando completou um aninho, Lucas descobriu que poderia conseguir qualquer coisa que quisesse dos pais se berrasse, se jogasse no chão. Para não passarem vergonha na frente dos outros, eles o atendiam prontamente. Até a mãe dele, a bancária Juliana Garcia Borges, de 23 anos, entender que. Agindo assim, estaria criando um “monstrinho” no futuro, levou um tempo. Mas atire a primeira pedra quem, assim como Lucas, nunca fez birra na vida para conseguir o que queria.
A birra é o comportamento mais comum entre as crianças, afirmam especialistas.“É a forma que eles tem de se comunicar com o mundo, e de responder a uma frustração”, explica a psicóloga Débora Sartorato, especialista em psicologia clínica. É sempre assim: quis alguma coisa e os pais não atenderam,”da-lhe birra”!
A exemplo do menino Lucas, as atitudes mais comuns dos birrentos é chorar, gritar, espernear, jogar-se no chão. “ O Lucas sempre teve gênio bravo. Tudo tem de ser do jeito que ele quer, na hora que ele quer. E na frente dos outros é pior”, conta Juliana.
Uma das cenas protagonizadas por Lucas foi em uma festinha com muitos convidados. “Ele queria um balão. A gente tirou de perto, então, ele começou a chorar e gritar. Ficamos roxos de vergonha, pois, para os outros, parece que a gente não educa”,relata.

ERA MODERNA - Desde que o mundo é mundo, a birra sempre existiu.Os adultos de hoje, com toda a certeza, foram birrentos alguma vez na infância. Mas para a educadora Cristina Poli, a “Supernnany” do programa do SBT, o consumismo aumentou a quantidade de birrentos do mundo. “Os pais se sentem culpados por trabalharem fora e ficarem pouco tempo com os filhos. Por isso, os cobrem de presentes para compensar essa ausência e mal sabem que estão contribuindo para que seis filhos fiquem mimados e aumentem as birras”, avalia.
Quando os pais tem a percepção de que estão errando na dose, tudo bem, mas e quando não admitem? “ São difíceis os pais que admitem ter filhos birrentos”, observa a psicóloga Débora Sartorato.
Juliana percebeu que estava cedendo demais à Lucas. Começou a ler mais sobre a questão e adotou a técnica do “deixa pra lá”. “Toda vez que ele fazia birra passei a ignorá-lo. Aí, apesar de novinho, ele endente que não conseguiria mais nada de mim daquele jeito”, conta. Faz três meses que Lucas é um “birrentinho” mais calmo.
LIMITES – A bancária assimilou bem a lição dada pela maioria dos especialistas. “ A birra dependendo do grau de permissividade dos pai. Quanto mais alto este for, pior para a criança”, explica a psiquiatra Fernando Ramos Asbahr.
Esse tipo de comportamento “errôneo”, diz o médico, não pode ser considerado uma patologia, “mas pode ser perpetuado na convivência”, saindo de casa e indo para a escola e outros ambientes fora de casa. Débora Sartorato salienta que filhos cujos pais cederam demais ás suas vontades, com toda certeza serão adultos que terão mais dificuldades para lidar com as frustações da vida.
Asbahr lembra que a birra, embora mais normal na infância, pode estender-se até a adolescência, gerando comportamentos mais complexos. É nessa faze tão complicada da vida que a situação ganha outra cara. “A birra pode, sim, estar associada a algo patológico nessa faze”, alerta o médico.
Se a criança é um pouco birrenta, os pais podem e devem -, segundo os especialistas, controlar a situação. Agora, se por qualquer coisa a criança esperneia, chora, faz manha, é melhor buscar ajuda especializada.

Saiba como agir – Saiba entender o que seu filho quer. As vezes, a manha pode ser sinal de doença ou fome, especialmente em bebês; - Se a criança chorar, espernear e gritar, não ceda. Mostre que, na hierarquia, você é quem esta acima, não ela; Haja com calma e firmeza, mas nunca seja agressivo. Tapa e xingo não resolve; - Caso as crises de birra sejam constantes. Procure ajuda especializada.

Fonte: Zero Hora (Cláudio furtado )